Como pode a Transição apoiar as comunidades em caso de desastres naturais? Como se ligam as nossas metodologias com conhecimentos ancestrais locais? Enfim, qual a cara da Transição noutras paragens?

Escolhi para vos contar histórias do Japão, Itália e América Latina, colhidas no último dia da nossa estadia colectiva em Santorso, Itália. Finda a reunião dos Hubs [representantes das estruturas nacionais do movimento em diferentes países], acolhemos transicionistas de toda a Itália num programa variado de testemunhos e apresentação de metodologias.

Ouvindo o relato de Shunro e Deborah descobri que, tanto no Japão como em Itália, o movimento de Transição tem apoiado comunidades vítimas de terramotos.

A Transição Japão começou em 2008. Desde 2011, na sequência do terramoto, tsunami e acidente nuclear em Fukushima, mais e mais pessoas estão conscientes da necessidade de mudar. Em 2016 o terramoto de Kumamoto fez-se sentir na casa de Shunro. Apesar das informações confusas nos média e de se encontrarem interrompidas as principais vias de acesso, muitos voluntários chegaram para apoiar as necessidades dos habitantes locais: cozinhar, ajudar na colheita, recolher coisas das casas destruídas, mais tarde apoiar a montagem de sistemas fotovoltaicos para retomar a electricidade nas casas das pessoas. Vieram voluntários da Transição e de outros movimentos semelhantes. Outros voluntários chegaram para partilhar as suas experiências no terramoto anterior.

O ano de 2016 foi igualmente nefasto na zona central de Itália, onde terramotos se fizeram sentir entre Agosto e Outubro. A experiência de Deborah refere-se a este último e acontece em Appennino, numa zona onde houve grandes perdas materiais, de construções, bens físicos e postos de trabalho, mas não de vidas humanas (não se referindo assim a Amatrice onde mais de 300 pessoas morreram). Para exprimir o apoio recebido nestes meses desde a ocorrência do terramoto, Deborah iniciou a sessão colocando as cadeiras dispersas pelo chão da sala, viradas do avesso. Por respeito à sua proposta, eu não levantei nem uma cadeira. A Deborah diz que este é o efeito geral – por “respeito” ao governo central, a sociedade não age, e no terreno houve apenas a remoção muito pontual de situações perigosas. Criou-se assim uma situação de “emergência local”, termo que junta a urgência à necessidade de “emergir”, isto é, a necessidade das pessoas saírem da apatia e assumirem o seu poder pessoal para enfrentar a destruição física e emocional. Nas palavras de Deborah, desde o terramoto vem-se criando uma nova identidade local, fundamentada na emergência de novas lideranças e na auto-determinação da comunidade.

Em Itália, o apoio da Transição fez-se sentir rapidamente, sobretudo a nível da intervenção em locais pequenos e inacessíveis às entidades governamentais. Sublinhando a importância da confiança, enquanto elemento chave na criação de relações propostas pela Transição, o apoio pedido pela comunidade local foi imediatamente atendido, chegando financiamento da Transition Network e donativos particulares. Em vez de imaginar as necessidades, inquiriram-se as pessoas locais, o que revelou a urgência de obter paineis fotovoltaicos, rádios e comida para animais. Esta última não pareceu relevante ao governo, mas se viveres do campo é essencial! Obter comida para animais tornou-se uma das acções-chave simbólicas do apoio da Transição.

Chegou apoio da Nova Zelândia, na forma do guia “Leading in DISASTER RECOVERY a companion through the chaos” – Liderando a Recuperação de Desastres, guia através do caos – tal como testemunhos do Chile, Nepal e Austrália. Perceberam que, para ultrapassar o caos da perda, é necessário compreender, criar narrativas que dão sentido e coerência à história do sucedido. Realizaram então um evento de 4 dias “Commune Emergenze” – emergências comuns/ comunitárias, completamente auto-organizado, onde se partilharam experiências e vivências. Daqui surgiram inúmeras iniciativas de recuperação da comunidade, tais como teatro social, construção ecológica, poesia, um Espaço Aberto com várias oficinas práticas.

Patrícia é uma mulher local que sempre pertenceu à Transição. O seu projecto de vida e realização profissional foi completamente destruído pelo terramoto. Diz que teria colapsado, se não fosse o evento e todo o apoio recebido nessas semanas. Se, antes do mesmo, dedicava 20% do seu tempo à Transição, agora quer estar 100% envolvida! Segundo Deborah, será a próxima presidente da câmara.

Voltando ao relato de Shunro, no Japão existem mais de 60 iniciativas locais de Transição. As pessoas juntam-se ao movimento através de diferentes grupos de trabalho: produção de comida ou algodão, cultura e transformação, montagem de sistemas de energia renovável, moeda local. Em Kamakura inventaram a Digital Detox Tour – uma visita guiada à cultura e património locais, com passeios e meditação zen, onde todos os aparelhos electrónicos pessoais são guardados à parte. Em Fujino existe um Clube de Galinhas (Fujino Chicken Club), cuidadas em conjunto por diferentes pessoas, sendo os ovos partilhados. A rede nacional (ou Hub) existe desde 2008, tendo por função a promoção da formação e edição de manuais e DVDs, o apoio às novas iniciativas em criação e a organização das reuniões e Festivais, tais como o Transition Summer Festival & Symposium. Este Hub tem 10 pessoas unidas como uma família.

Para Shunro a Transição é uma das mais maiores experiências a nível mundial e é um grande apoio saber que muitas pessoas em todo o mundo participam.

A Deborah repetiu várias vezes: em caso de desastre natural, o mais importante é teres uma tenda e um rádio disponível, seres honesta naquilo que precisas e … conheceres os teus vizinhos!

*

Na América Latina as prioridades da Transição parecem convergir na interligação com os movimentos indígenas locais. A Anahi contou-nos que, no México [no Facebook], existem cerca de 15 iniciativas e que o tema das moedas locais é muito forte e bem estabelecido. Falou-nos da resistência à mafia florestal em Cheran e das patronas, mulheres de Vera Cruz que começaram a rebelar-se contra o governo local. O Zapatismo, que nasce em 1994 como exército das populações nativas para defender o seu território, há quatro que posou as armas para continuar o seu trabalho através da educação e da presença política.

A Catalina do Chile contou-nos que a transição se iniciou em 2008 a partir do movimento de permacultura, tornando-se Hub oficial em 2015 [no Facebook]. Falou-nos de como os anciãos ensinam a viver com a natureza. Uma planta não é um objecto mas um sujeito: a questão não é conhecê-la pela sua utilidade, mas saber comunicar com ela. Se te queres curar apanhas uma planta, uma qualquer planta, e pedes-lhe o que precisas, o que queres que te cure. A Catalina (Chile), Anahi (México) e Seba (Argentina/ Uruguai) propuseram-nos explorar os fundamentos do movimento indígena do Bien Vivir, com os quatro quadrantes da concepção quechua de Sumak Kawsay: Ushay (poder pessoal), Yachay (saber), Munay (querer e pertencer) e Ruray (fazer). A inspiração que me trouxeram estes jovens latinoamericanos, além do ancoramento nos valores ancestrais de ligação à terra e da força dos seus corações, que já conhecia, foi o foco explícito na integração da sabedoria e dos métodos locais. Lanço ao vento a pergunta: de que forma mais profunda poderemos incluir a tradição portuguesa na nossa transição, em Portugal?

Escrevendo ao ritmo do comboio e de regresso a casa,

Sara